Terapia bioenergética: o que é, como funciona e para quem faz sentido

Tem um jeito de dar conta da vida que mora no corpo. Os ombros que sobem antes da reunião difícil. A respiração que encurta quando alguém pede mais uma coisa. O maxilar que só solta nas férias (ou nem isso).

A gente chama isso de cansaço, de postura, de estresse. E segue.

Mas e se esse jeito de se segurar fosse também um jeito de existir, construído aos poucos, ao longo de uma vida inteira sendo forte?

Foi essa pergunta que me levou à bioenergética. E é dela que quero partir aqui.

O que é terapia bioenergética

A Bioenergética, também chamada de Análise Bioenergética, foi criada em 1953 pelos psicanalistas Alexander Lowen e John Pierrakos, a partir do trabalho de Wilhelm Reich. Já nos anos 1940, Reich defendia algo que soava quase subversivo para a psicanálise da época: incluir o corpo na terapia.

A ideia central é que corpo e mente não funcionam em compartimentos separados. O que acontece em um reverbera no outro. A forma como você respira, se apoia nos pés, segura ou solta os ombros faz parte da mesma experiência que você chama de emoção, de pensamento, de história.

Gosto muito de como Lowen desenvolveu o método: ele experimentava no próprio corpo cada exercício que propunha aos pacientes, porque não achava justo pedir a alguém o que não estivesse disposto a pedir ao próprio corpo. Essa ética ainda me guia.

Couraça: quando a proteção vira forma

Reich chamou de couraça muscular os padrões de tensão crônica que, nessa leitura, se organizam como proteção. Uma forma de não sentir demais, de não desabar, de continuar funcionando.

Não é defeito. É uma solução que um dia fez sentido. Só que a mesma couraça que protege da dor também pode estreitar o espaço para o prazer, para a espontaneidade, para a sensação de estar viva.

Um cuidado importante: uma tensão não prova um trauma, e uma região do corpo não corresponde automaticamente a uma emoção. Na bioenergética, o corpo não é um mapa para ser decifrado de fora. É um território para ser percebido de dentro, com tempo e com alguém ao lado.

Como funciona uma sessão comigo

Uma sessão combina psique-corpo e faço um mix de conversa e experiência corporal. Algumas práticas que uso com frequência são:

  • Escuta do corpo e sentir: Primeiro de tudo te ajudo a fazer um mapeamento do sentir, muitas pessoas chegam desconectadas e sem perceber onde há bloqueios, qual é a voz do seu corpo, qual história que o corpo precisa te contar, como voltar a sentir? E mais importante, seu inconsciente confia em seu corpo para sustentar as emoções?
  • Arteterapia e visualização criativa: Para aprofundar nos níveis de consciência e inconsciente. O nível transpessoal é sempre convidado.
  • Grounding (enraizamento): É um convite para conexão com a segurança no corpo. Sentir os pés no chão, as pernas sustentando o peso, às vezes curvando o corpo à frente até as mãos tocarem o chão. Parece simples. Para quem vive no alto da cabeça, costuma ser revelador.
  • Respiração: Perceber onde a respiração para, onde ela encurta, e através dela se oferecer um pouco mais de espaço para sentir.
  • Movimento e expressão: Presença e atenção para interpretar gestos, sons e posturas que dão forma ao que ainda não tem palavra.
  • Vibração: algumas posturas geram tremores leves e naturais. No modelo bioenergético, eles são lidos como mobilização de energia e acompanhados com cuidado. Um corpo vivo, vibra!!!

Nada é forçado. O ritmo é seu, e o corpo não é empurrado a liberar coisa alguma. A conversa vem antes, durante e depois, porque o que se vive no corpo só se integra quando ganha palavra.

Para quem faz sentido

Para quem já entendeu tudo com a cabeça e continua sentindo o mesmo aperto no peito. Para quem vive no modo funcional, resolve, entrega, sustenta, e em algum momento percebeu que ficou longe de si.

Para a mulher que dá conta de tudo, mas não sabe mais de si.

A bioenergética não substitui acompanhamento médico ou psiquiátrico quando ele é necessário. Ela pode caminhar junto.

A bioenergética é reconhecida?

No Brasil, a Bioenergética faz parte da Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC) do SUS desde 2018. Existe produção clínica e acadêmica sobre a abordagem, embora a pesquisa ainda seja menor do que a de linhas mais estudadas da psicologia.

Bioenergética, Psicologia Transpessoal e a Arquitetura do Sentir®

No meu livro Corpo Transpessoal, investiguei as complementaridades entre a Bioenergética e a Abordagem Integrativa Transpessoal (AIT), sistematizada por Vera Saldanha, a partir de atendimentos individuais e vivências em grupo que conduzi entre 2016 e 2019. Dali nasceram exercícios, meditações e protocolos que hoje sustentam a Arquitetura do Sentir®, a metodologia que criei.

Nela, o corpo é a porta de entrada, o sentir é o caminho, a consciência é o movimento e a integração é o destino. Na prática, isso vira uma jornada em quatro movimentos: descongelar, sentir, movimentar e integrar.

Se quiser continuar essa conversa, escrevi também sobre o que é um Corpo Transpessoal.

Talvez não seja aprender algo novo

Uma convicção que escrevi no livro e continua viva em mim: talvez a gente não precise aprender algo novo. Talvez precise desaprender o hábito de ignorar o corpo, que vamos adquirindo desde criança, e voltar à sabedoria que ele já tem.

Então, uma pergunta para levar com você: onde, no seu corpo, você está se segurando agora? Não precisa mudar nada. Perceber já é o começo.

Atendo em São Paulo, na Vila Mariana, e online. Se fizer sentido, fale comigo pelo WhatsApp.